A armadilha do próximo degrau - quando a carreira vira uma corrida sem linha de chegada
No meio da correria do dia-a-dia, às vezes aparece lá no fundo da gente uma pergunta: para onde, exatamente, eu estou correndo?
O mundo do trabalho moderno é habilidoso em nos manter em movimento. Há sempre um próximo nível, uma próxima meta, um próximo bônus. E nessa lógica, parar para pensar virou quase um luxo, ou pior, um sinal de fraqueza, de falta de ambição, de acomodação.
Mas o que acontece quando a ambição deixa de ser um combustível e se torna uma prisão?
A cultura da performance e o que ela faz com a gente
O ambiente corporativo contemporâneo foi construído sobre uma premissa sedutora: você vale o que você produz. Sua posição na hierarquia, seu salário, seu título no LinkedIn, tudo isso virou, de alguma forma, uma medida de valor pessoal. E quando confundimos valor profissional com valor humano, entramos em território perigoso.
A promoção que não vem vira humilhação. O bônus abaixo do esperado vira fracasso. O colega que sobe antes vira ameaça. E a pessoa que está dentro de tudo isso, com seus medos, suas histórias, seus desejos, vai ficando cada vez mais assustada e solitária.
Caso clínico — A pressa de chegar em algum lugar
Thiago* tem 34 anos, é analista sênior em uma grande empresa e chega ao consultório com uma queixa objetiva: "Eu preciso ser promovido a gerente. Estou travado."
Ele fala rápido. Lista competências, projetos entregues, feedbacks positivos que recebeu. É organizado, articulado, claramente inteligente. Mas parece que Thiago sequer respira.
Quando pergunto como ele se sentiria sendo gerente, ele hesita pela primeira vez. "Bem. Realizado." Uma pausa. "Acho. Todo mundo quer isso, não é?”
Thiago não sabe, de fato, o que espera encontrar quando chegar lá. Não pensou nas reuniões intermináveis, na responsabilidade sobre outras pessoas, nas cobranças que dobram, na exposição que aumenta. A gerência, para ele, não é um cargo, é uma prova de que ele é suficiente, de que ele é alguém. De que chegou “lá”. De que valeu a pena todas as noites mal dormidas, o metrô cheio, as raivas que passou?
Mas o que aconteceu no mês passado abalou algo nele: seu colega Felipe foi promovido. Felipe, que entrou depois dele. Felipe, que "não trabalha nem metade do que eu trabalho."
A raiva foi intensa, e durou dias. Thiago ficou quieto nas reuniões, distante com a equipe, acordou muitas vezes às três da manhã ruminando. Não conseguia entender de onde vinha aquela raiva toda. "Eu não estou com inveja", como se esse sentimento fosse feio, algo que não pudesse ser sentido.
Mas não é inveja. É desamparo. É a sensação de que as regras do jogo que ele aceitou jogar não estão sendo cumpridas. Se Felipe chegou lá sem merecer, talvez o jogo nunca tenha sido justo. Talvez ele nunca chegue. E se não chegar, o que ele é? Um fracassado?
Depois veio o bônus. Abaixo do esperado, mas o suficiente. Para qualquer observador externo, seria uma decepção razoável, passageira. Para Thiago, foi uma sentença. Passou o fim de semana inteiro remoendo. Brigou com a namorada por uma bobagem. Cancelou um almoço com amigos. "Não estava com cabeça."
O que ele não conseguia ver, ainda, é que o bônus tinha virado um espelho, e o que ele via nele não era um número. Era uma avaliação sobre quem ele é.
O que a psicanálise enxerga nessa corrida
A psicanálise nos convida a olhar não apenas para o que a pessoa quer, mas para o que esse querer tem por trás junto. Por que essa promoção específica? Por que agora? O que ela representa além do salário, do título, do estacionamento no andar de baixo?
Em muitos casos, a obsessão com crescimento profissional é uma tentativa de responder, no mundo externo, a uma pergunta interna muito mais antiga: eu sou bom o suficiente? Essa pergunta costuma ter raízes longas: um pai exigente, uma infância em que o amor parecia condicional ao desempenho, uma escola onde ser o melhor era a única forma de ser visto.
O problema é que nenhuma promoção responde essa pergunta de verdade. Porque a resposta que a pessoa busca não está no organograma da empresa. E então, quando a promoção finalmente vem, o alívio dura pouco, logo surge a próxima meta, o próximo degrau, a próxima prova.
É uma corrida em que a linha de chegada se move sempre um passo à frente.
Algumas perguntas que o processo terapêutico pode abrir:
O que eu acredito que vai mudar na minha vida quando eu for promovido?
Se eu não crescesse mais na carreira, o que restaria de mim?
A raiva que sinto quando um colega avança antes diz mais sobre ele ou sobre mim?
Estou construindo uma carreira que quero ou cumprindo uma expectativa que nem sei de quem é?
Performar é diferente de viver
Não há nada de errado em querer crescer, em ter ambições, em trabalhar duro, em querer ser reconhecido. O problema começa quando a performance deixa de ser um meio e vira um fim. Quando até o valor de um domingo é medido pela produtividade que ele gerou.
Quando uma conversa com amigos vira uma distração culpada, que não deveria acontecer, afinal, trabalhar é mais importante. Quando a pergunta "como você está?" é respondida automaticamente com a lista de coisas que você entregou.
Thiago não precisa abandonar sua ambição. Ele precisa, talvez pela primeira vez, fazer amizade com ela e entender de onde ela vem, o que ela protege, o que ela esconde. E descobrir se o lugar para onde está correndo é de fato o lugar aonde ele quer chegar.
Ou se, no fundo, ele só quer parar de correr.